Quem tem medo dos HACHERS?
Na próxima semana, em Viena, os cientistas e engenheiros europeus irão aplicar as bizarras leis da física quântica para o uso prático, no dia-a-dia. (Ver “Senhas e Criptografia Quântica”)
Os pesquisadores irão demonstrar uma rede de transmissão de mensagens codificadas com pacotes de luz de quânticos considerados invioláveis (uncrackable).
Alguns desses pesquisadores afirmam que essas redes quânticas poderão, em breve, servir de comunicação segura entre os bancos ou os escritórios governamentais.
“Este é um momento em que a pesquisa se transforma em tecnologia”, disse Chip Elliott, engenheiro de rede que trabalha na BBN Technologies, em Cambridge, Massachusetts, que há 5 anos atrás investiu na construção da rede DARPA, mais primitiva.
Ainda assim, ele adverte, “é muito cedo para dizer se existem clientes para isso.”
Sendo o resultado de 4 anos de trabalho e de 11,4 milhões de euros financiados pela União Européia, a rede irá conectar seis locais em toda a cidade através de oito ligações de fibra-óptica existentes, todas pertencentes à gigante industrial Siemens.
A Siemens distribuirá as “chaves” numéricas para a codificação das mensagens secretas.
Uma mensagem pode ser cifrada convertendo-a em uma seqüência de “zero” e “um” e cifrando esses bits compondo-os com uma chave, uma seqüência aleatória de 0s e 1s.
Se apenas o remetente, a Alice, e o receptor, o Bob, conhecem a chave, então só eles podem ler a mensagem.
O truque é transmitir a chave sem que seja vista pelo espião, o Eve.
A distribuição da chave quântica explora o fato de que é impossível medir a presença de um fóton sem alterar a energia do mesmo.
Por exemplo, Alice pode enviar fótons individuais para o Bob com a seguinte chave: os fótons polarizados horizontalmente representam o “zero” e aqueles polarizados verticalmente representam o “um”.
Graças à esquisitice quântica, ela também pode enviar fótons polarizados em ambos os sentidos, ao mesmo tempo e misturados àqueles da chave.
Se Eve tentar medir a luz das partículas, provocará um “colapso” dos fótons inicialmente bidirecionados: todos ficarão com a polarização vertical ou com a horizontal.
Bob e Alice podem detectar essa interferência de Eve comparando alguns bits escolhidos aleatoriamente.
Algumas empresas fazem sistemas quânticos para conectar dois usuários através de uma única ligação, enquanto o projeto Viena serpenteia seis sistemas díspares em uma rede automatizada.
“Você faz apenas uma ligação a um nó e pode se conectar a qualquer outro usuário”, informa Andreas Poppe, físico austríaco que trabalha no Centro de Pesquisa da Áustria, em Viena.
De fato, essa rede não será totalmente quântica, o que permitiria que Alice enviasse fótons para Bob através de qualquer quantidade de nós.
Isso, porém, exigiria os dispositivos chamados de “repetidores quânticos”, os quais ainda estão no futuro um tanto distante.
Na rede de Viena, cada usuário gera uma chave que é armazenada como 0s e 1s clássicos (não-quânticos) no nó em que ficará conectado.
Esses bits clássicos fluem de nó para nó, conforme for necessário, sendo quanticamente criptografados à medida que atravessam cada ligação.
“O que a nossa rede supõe é que você pode confiar em cada um dos nós intermediários”, diz Andrew Shields, físico da Toshiba Europa Research em Cambridge, Reino Unido.
Ninguém será convidado para tentar retalhar (hachear) a rede, claro.
Isso porque provavelmente os hackers vão preferir ignorar o sistema quântico e atacar as peças convencionais do sistema, o que não serviria de teste para o novo conceito, comenta Poppe.
Ainda assim, os pesquisadores esperam que a demonstração sinalize para a emergência das novas tecnologias, especialmente para as redes privadas.
Alguns especialistas estão céticos, como Ronald Rivest, engenheiro de computação no Massachusetts Institute of Technology, em Cambridge ao considerar “que o impacto sobre a atual prática de criptografia será, provavelmente, muito pequeno”.
As técnicas atuais, que não confiam no compartilhamento de chaves secretas, mas confiam nas manipulações matemáticas – as quais são praticamente impossíveis de retroceder – já funcionam muito bem, comenta Rivest, prevendo que o nicho para os sistemas de rede quântica será pequeno.
Os desenvolvedores da rede quântica estão com mais esperança, tal qual o físico Nicolas Gisin da Universidade de Genebra, na Suíça: “Acho que, em nossa escala de coisas, será um dia histórico”.
A pergunta que fica é: será que os tecnólogos e analistas do mercado também entenderão o projeto dessa mesma forma?
(Matéria publicada por Adrian Cho em Science 3 October 2008: Vol. 322, no. 5898)





