Há muito tempo “os deuses da engenharia financeira” têm colocado muita fé em axiomas econômicos não testados e nos modelos de economia equivocados.
Para impedir a devastação econômica mundial, é preciso acabar com essa incompetência, é necessário alterar urgentemente esse procedimento.
Comparando com a Física, parece justo afirmar que o sucesso quantitativo das ciências econômicas tem sido extremamente decepcionante.
Os físicos têm garantido que os foguetes voem para a Lua, que a energia seja extraída de mínimas variações de massa atômica, que haja maior precisão nos dignósticos de doenças etc…
E os economistas? Qual é a realização emblemática da economia no nosso planeta?
Só a sua recorrente incapacidade de prever e evitar crises, incluindo a atual quebra de crédito em âmbito mundial.
Por que isto acontece?
Claro que, parafraseando Isaac Newton, criar um modelo para a loucura das pessoas é muito mais difícil do que modelar o movimento dos planetas.
Mas as regularidades estatísticas devem emergir do comportamento das grandes populações, tal como a lei dos gases ideais emerge a partir do caótico movimento das moléculas individuais do mesmo.
Para mim, a diferença crucial entre os modelos em física e em economia reside na forma de como são tratados os campos relativos das funções dos conceitos, das equações e dos dados empíricos.
A economia clássica está alicerçada sobre muitos pressupostos poderosos que rapidamente se tornam axiomas, como:
1- acredita-se na racionalidade dos agentes econômicos (a premissa de que cada agente econômico, seja uma pessoa ou uma empresa, age para maximizar seus lucros);
2- acredita-se na «Mão Invisível» (que os agentes, na defesa dos seus próprios lucros, são levados a fazer aquilo que é melhor para a sociedade como um todo);
3- acredita-se na eficiência do mercado (que os preços do mercado refletem fielmente todas as informações conhecidas a cerca dos ativos).
Certa vez ouvi de um economista, para meu espanto: “Estes conceitos são tão fortes que eles substituem qualquer observação empírica“.
Isso lembra o argumento do economista Robert Nelson em seu livro “Economia e Religião” (Pennsylvania State Univ. Press, 2002): o mercado tem sido divinizado.
Os físicos, por outro lado, aprenderam a suspeitar dos axiomas.
Se uma observação empírica é incompatível com um modelo, o modelo deve ser alterado ou ir para a lixeira, mesmo que seja conceitualmente bonito ou matematicamente conveniente.
Na história da física está registrado que muitas idéias (modelos) aceitas durante algum tempo estavam erradas, por isso os físicos cultivam a crítica e desconfiam dos seus próprios modelos.
Infelizmente, essas saudáveis revoluções científicas ainda não aconteceram na economia, onde as idéias são solidificadas em dogmas.
Estes acabam sendo perpetuados através do sistema educacional: os alunos não questionam as fórmulas que podem usar sem pensar.
Embora ao longo das últimas décadas, muitos físicos tenham sido recrutados por instituições financeiras, eles parecem esquecer a metodologia das ciências naturais na medida em que absorvem e regurgitam os dogmas econômicos existentes.
A suposta onisciência e a perfeita eficácia do livre mercado é reminiscência do mundo econômico das décadas de 1950 e 1960, o qual, retrospectivamente, manipulava mais com a propaganda anticomunista do que com uma ciência plausível.
Na realidade, os mercados não são eficientes, pois os humanos tendem a focar excessivamente nas ações de curto prazo e a ficar cegos no longo prazo e os erros são amplificados de tal forma que levam, em última análise, à irracionalidade, ao pânico e à quebradeira geral.
Os livres mercados de fato são mercados selvagens.