A atual instabilidade da economia mundial escancara aos olhos a às mentes que a dependência dos modelos econômicos baseados em axiomas incorretos e dogmatizados, apresenta efeitos claramente danosos e de alcance planetário.
O modelo Black-Scholes, por exemplo, que foi inventado em 1973 para as opções de preços de produtos, é ainda amplamente utilizado, apesar da atual configuração da economia ser muito mais complexa.
Além disso, esse modelo pressupõe que a probabilidade de mudanças extremas dos preços é insignificante, quando, na realidade, os preços das ações apresentam flutuações caóticas que superam muito os limites suportados pelo modelo.
Há vinte e um anos atrás, o uso indevido do modelo espiralou drasticamente na quebradeira de outubro de 1987 em todo o mundo: em um único dia o índice Dow Jones despencou 23%.
Só isso mostra o nanismo dos recentes soluços do mercado ao mesmo tempo que coloca um sinal vermelho de pânico mediante do que ainda pode acontecer na presente conjuntura.
Ironicamente, foi a própria utilização de um modelo livre de quebradeira que ajudou a desencadear uma quebradeira no mercado de ações.
Apesar disso, os autores desse modelo foram agraciados com o Nobel de Economia em 1997!!!!
Desta vez, o problema reside, em parte, no desenvolvimento de produtos financeiros estruturados os quais empacotam um suposto baixo risco em investimentos de alto rendimento aparentemente respeitáveis e seguros.
Fica então comprovado que os modelos utilizados para definir os preços desses produtos estão fundamentalmente errados: subestimaram a probabilidade de que múltiplos mutuários falhassem no pagamento dos empréstimos simultaneamente.
Esses modelos novamente negligenciaram a real possibilidade de uma crise global, inclusive uma crise iniciada com a própria contribuição.
Surpreendentemente, a economia clássica não tem referencial através do qual possa entender os “mercados selvagens“, embora a sua existência seja tão evidente para os leigos.
A Física, por outro lado, tem desenvolvido vários modelos que explicam como as pequenas perturbações podem conduzir a efeitos selvagemente devastadores.
A teoria da complexidade mostra que embora um sistema possa ter um estado fisicamente otimizado, às vezes é tão difícil de identificá-lo que o sistema nunca se encontra nesse estado.
Esse estado otimizado não é só ilusório, também é hiper-frágil mesmo diante de pequenas alterações no ambiente e, por isso, na maioria das vezes é irrelevante para a compreensão do que está acontecendo em certo fenômeno.
Há boas razões para considerar que este paradigma deve ser aplicável aos sistemas econômicos em geral e aos mercados financeiros em particular.
Temos de romper com a economia clássica e avançar no desenvolvimento de ferramentas estruturadas em modelos mais realistas e capazes de prever o largo espectro do atual e do futuro comportamento da economia em âmbitos local e mundial.
Alguns economistas comportamentais e ecônomo-físicos estão tentando fazer isso agora, de uma forma desigual, mas os seus frágeis esforços não são levados a sério pelos gurus da economia.
Enquanto o trabalho é feito para renovar os modelos econômicos, a regulamentação do esplêndido negócio de papeis também precisa melhorar e muito.
Antes de serem lançadas no mercado as inovações em produtos financeiros deverão:
A) ser comprovadamente bem analisadas pelos agentes financeiros;
B) ter suas resistências testadas contra cenários extremos fora do reino dos modelos atuais e, muito importante,
C) ser aprovadas por agências independentes, tal como é feito com outras indústrias potencialmente letais (química, farmacêutica, aeronáutica, energia nuclear).
É crucial a mudança de mentalidade das pessoas que trabalham em economia e engenharia financeira.
Um passo importante seria reconhecer que os currículos das escolas de economia necessitam incluir mais ciências naturais.
Sem qualquer pretenção dogmática, para que as transformações econômicas garantam melhor estabilidade econômica de longo prazo, devem estar apoiadas em dois pré-requisitos:
1- o desenvolvimento de uma representação (ou abordagem) mais pragmática e realista a respeito do que está acontecendo nos mercados financeiros, e
2- centralização do controle nas informações obtidas das medidas do comportamento da economia, as quais deverão sempre substituir as equações perfeitas e os axiomas estéticos.



