Arquivo da Categoria ‘economia’

O Futuro da Economia: Como serão os modelos?

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A atual instabilidade da economia mundial escancara aos olhos a às mentes que a dependência dos modelos econômicos baseados em axiomas incorretos e dogmatizados, apresenta efeitos claramente danosos e de alcance planetário.

O modelo Black-Scholes, por exemplo, que foi inventado em 1973 para as opções de preços de produtos, é ainda amplamente utilizado, apesar da atual configuração da economia ser muito mais complexa.

Além disso, esse modelo pressupõe que a probabilidade de mudanças extremas dos preços é insignificante, quando, na realidade, os preços das ações apresentam flutuações caóticas que superam muito os limites suportados pelo modelo.

Há vinte e um anos atrás, o uso indevido do modelo espiralou drasticamente na quebradeira de outubro de 1987 em todo o mundo: em um único dia o índice Dow Jones despencou 23%.

Só isso mostra o nanismo dos recentes soluços do mercado ao mesmo tempo que coloca um sinal vermelho de pânico mediante do que ainda pode acontecer na presente conjuntura.

Ironicamente, foi a própria utilização de um modelo livre de quebradeira que ajudou a desencadear uma quebradeira no mercado de ações.

Apesar disso, os autores desse modelo foram agraciados com o Nobel de Economia em 1997!!!!

Desta vez, o problema reside, em parte, no desenvolvimento de produtos financeiros estruturados os quais empacotam um suposto baixo risco em investimentos de alto rendimento aparentemente respeitáveis e seguros.

Fica então comprovado que os modelos utilizados para definir os preços desses produtos estão fundamentalmente errados: subestimaram a probabilidade de que múltiplos mutuários falhassem no pagamento dos empréstimos simultaneamente.

Esses modelos novamente negligenciaram a real possibilidade de uma crise global, inclusive uma crise iniciada com a própria contribuição.

Surpreendentemente, a economia clássica não tem referencial através do qual possa entender os “mercados selvagens“, embora a sua existência seja tão evidente para os leigos.

A Física, por outro lado, tem desenvolvido vários modelos que explicam como as pequenas perturbações podem conduzir a efeitos selvagemente devastadores.

A teoria da complexidade mostra que embora um sistema possa ter um estado fisicamente otimizado, às vezes é tão difícil de identificá-lo que o sistema nunca se encontra nesse estado.

Esse estado otimizado não é só ilusório, também é hiper-frágil mesmo diante de pequenas alterações no ambiente e, por isso, na maioria das vezes é irrelevante para a compreensão do que está acontecendo em certo fenômeno.

Há boas razões para considerar que este paradigma deve ser aplicável aos sistemas econômicos em geral e aos mercados financeiros em particular.

Temos de romper com a economia clássica e avançar no desenvolvimento de ferramentas estruturadas em modelos mais realistas e capazes de prever o largo espectro do atual e do futuro comportamento da economia em âmbitos local e mundial.

Alguns economistas comportamentais e ecônomo-físicos estão tentando fazer isso agora, de uma forma desigual, mas os seus frágeis esforços não são levados a sério pelos gurus da economia.

Enquanto o trabalho é feito para renovar os modelos econômicos, a regulamentação do esplêndido negócio de papeis também precisa melhorar e muito.

Antes de serem lançadas no mercado as inovações em produtos financeiros deverão:

A) ser comprovadamente bem analisadas pelos agentes financeiros;

B) ter suas resistências testadas contra cenários extremos fora do reino dos modelos atuais e, muito importante,

C) ser aprovadas por agências independentes, tal como é feito com outras indústrias potencialmente letais (química, farmacêutica, aeronáutica, energia nuclear).

É crucial a mudança de mentalidade das pessoas que trabalham em economia e engenharia financeira.
Um passo importante seria reconhecer que os currículos das escolas de economia necessitam incluir mais ciências naturais.

Sem qualquer pretenção dogmática, para que as transformações econômicas garantam melhor estabilidade econômica de longo prazo, devem estar apoiadas em dois pré-requisitos:

1- o desenvolvimento de uma representação (ou abordagem) mais pragmática e realista a respeito do que está acontecendo nos mercados financeiros, e

2- centralização do controle nas informações obtidas das medidas do comportamento da economia, as quais deverão sempre substituir as equações perfeitas e os axiomas estéticos.

Deus Negro?

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Após mais de 60 anos de intensas lutas raciais nos Estados Unidos da América, eis que aquela sociedade surpreende o mundo e demonstra a capacidade – ou pelo menos a disposição – que tem de superar as próprias limitações: para tanto elegeu um negro para Presidente!

Considerando que os 8 anos do governo Bush Júnior foram pateticamente terríveis para os filhos e enteados daquele país, chega a ter alguma lógica a atitude de escolher um Presidente que promete mudanças ou, quem sabe, até mesmo transformações nos processos e procedimentos da política econômica interna e nas relações internacionais.

Na política interna dos USA reaparece o fantasma do desemprego fortemente aliado ao descrédito das instituições privadas que se emaranharam em um bacanal financeiro com alcance mundial.

Tudo indica que esse bacanal só se tornou possível em função da estrutura econômica escolhida cujas falhas permitem - em nome do tal livre mercado - qualquer manobra financeira que justifique a busca do lucro irrefreável e, no mundo globalizado, consiga inclusive a materialização da riqueza virtual.

É impressionante como esse modelo econômico torna possível enriquecer sem produzir absolutamente NADA!

Imagina um pária milionário!

Se isso é um problema econômico estrutural, será necessário ter “aquilo” super roxo para conseguir modificar ou transformar essa estrutura carcomida.

No campo das relações exteriores, há um sem número de situações problemas originárias do desastroso governo do Bush Junior: Iraque, Afeganistão, países da África são alguns exemplos da irresponsabilidade calculada de um governo oriundo e aliado da indústria bélica.

No entanto o principal ponto que o Presidente Negro terá de enfrentar é a imensa falta de credibilidade em que as nações mais ricas se encontram diante das populações marginalizadas deste planeta.

Ninguém confia em mais ninguém!

Este desafio externo está alinhavado com o interno e, com certeza, só haverá encaminhamento político e econômico adequado se as propostas atenderem simultaneamente a ambos.

Para isso, é preciso revolucionar os modelos econômicos e a política de implementação e controle desses modelos, sem dogmas e sem divinizações de qualquer natureza.

Não há mais guarida para os dogmas falaciosos da “Mão Invisível“ e da “auto regulamentação do livre mercado“.

Parece-me óbvio que um elemento básico importantíssimo que deve orientar a política internacional e os novos modelos econômicos é o fato de que este planeta é único e, por isso, deve ser compartilhado igualmente por todos os seres vivos, os quais têm direito a viver condignamente sem destruí-lo.

Talvez isso seja um pequeno passo para recomeçar… porém é preciso que todos nós sejamos muito mais criativos e nos empenhemos, sem parar, para continuar a revolução.

Todos devemos ter consciência de que o Presidente Negro não é e nem deve ser um Deus todo poderoso!

Nada de divinização!!!

É preciso REVOLUCIONAR a Economia Mundial!!!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Há muito tempo “os deuses da engenharia financeira” têm colocado muita fé em axiomas econômicos não testados e nos modelos de economia equivocados.

Para impedir a devastação econômica mundial, é preciso acabar com essa incompetência, é necessário alterar urgentemente esse procedimento.

Comparando com a Física, parece justo afirmar que o sucesso quantitativo das ciências econômicas tem sido extremamente decepcionante.

Os físicos têm garantido que os foguetes voem para a Lua, que a energia seja extraída de mínimas variações de massa atômica, que haja maior precisão nos dignósticos de doenças etc…

E os economistas? Qual é a realização emblemática da economia no nosso planeta?

Só a sua recorrente incapacidade de prever e evitar crises, incluindo a atual quebra de crédito em âmbito mundial.

Por que isto acontece?

Claro que, parafraseando Isaac Newton, criar um modelo para a loucura das pessoas é muito mais difícil do que modelar o movimento dos planetas.

Mas as regularidades estatísticas devem emergir do comportamento das grandes populações, tal como a lei dos gases ideais emerge a partir do caótico movimento das moléculas individuais do mesmo.

Para mim, a diferença crucial entre os modelos em física e em economia reside na forma de como são tratados os campos relativos das funções dos conceitos, das equações e dos dados empíricos.

A economia clássica está alicerçada sobre muitos pressupostos poderosos que rapidamente se tornam axiomas, como:

1- acredita-se na racionalidade dos agentes econômicos (a premissa de que cada agente econômico, seja uma pessoa ou uma empresa, age para maximizar seus lucros);

2- acredita-se na «Mão Invisível» (que os agentes, na defesa dos seus próprios lucros, são levados a fazer aquilo que é melhor para a sociedade como um todo);

3- acredita-se na eficiência do mercado (que os preços do mercado refletem fielmente todas as informações conhecidas a cerca dos ativos).

Certa vez ouvi de um economista, para meu espanto: “Estes conceitos são tão fortes que eles substituem qualquer observação empírica“.

Isso lembra o argumento do economista Robert Nelson em seu livro “Economia e Religião” (Pennsylvania State Univ. Press, 2002): o mercado tem sido divinizado.

Os físicos, por outro lado, aprenderam a suspeitar dos axiomas.

Se uma observação empírica é incompatível com um modelo, o modelo deve ser alterado ou ir para a lixeira, mesmo que seja conceitualmente bonito ou matematicamente conveniente.

Na história da física está registrado que muitas idéias (modelos) aceitas durante algum tempo estavam erradas, por isso os físicos cultivam a crítica e desconfiam dos seus próprios modelos.

Infelizmente, essas saudáveis revoluções científicas ainda não aconteceram na economia, onde as idéias são solidificadas em dogmas.

Estes acabam sendo perpetuados através do sistema educacional: os alunos não questionam as fórmulas que podem usar sem pensar.

Embora ao longo das últimas décadas, muitos físicos tenham sido recrutados por instituições financeiras, eles parecem esquecer a metodologia das ciências naturais na medida em que absorvem e regurgitam os dogmas econômicos existentes.

A suposta onisciência e a perfeita eficácia do livre mercado é reminiscência do mundo econômico das décadas de 1950 e 1960, o qual, retrospectivamente, manipulava mais com a propaganda anticomunista do que com uma ciência plausível.

Na realidade, os mercados não são eficientes, pois os humanos tendem a focar excessivamente nas ações de curto prazo e a ficar cegos no longo prazo e os erros são amplificados de tal forma que levam, em última análise, à irracionalidade, ao pânico e à quebradeira geral.

Os livres mercados de fato são mercados selvagens.

BIOCOMBUSTÍVEL: Novas Relações Internacionais (parte 2)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A pergunta que ficou anteriormente foi:

Será que o Ocidente tem alguma vantagem competitiva que poderia aproveitar para corrigir esta tendência?

Um fato ainda verdadeiro é que as instituições de ensino superior nos Estados Unidos e na maioria dos países da Europa Ocidental, ainda são consideradas como as melhores do mundo.

Em 2007, a Universidade Shanghai Jiao Tong na China classificou as universidades no mundo e listou 48 instituições norte-americanas e européias entre as primeiras 50 universidades.

O que isso representa?

Possivelmente essas instituições, juntas, detêm invejável massa crítica intelectual de talento e criatividade.

Há mais três aspectos importantes relacionados com essas 48 universidades:

1- o custo efetivo da força de trabalho dos estudantes de pós-graduação em pesquisa e desenvolvimento continua sendo a melhor relação em comparação a qualquer outro lugar.

2- os salários da maioria dos membros docentes são pagos pelas faculdades e universidades para a atividade de ensino e seriam mínimos os custos para incorporar estes intelectuais aos projetos de pesquisa e desenvolvimento.

3- muitas faculdades e universidades têm laboratórios ativos que seriam proibitivamente caros para a maioria das empresas.

Diante dessa constatação, surgem dois questionamentos:

Porque as corporações estadunidenses e européias ainda não adotaram as suas faculdades e universidades como centros corporativos de pesquisa e desenvolvimento?

Por que não existem mais empresas de base tecnológica incubando os seus novos conceitos de produtos nas universidades?

Acontece que existem muitos obstáculos tanto acadêmicos quanto empresariais desfigurando as possibilidades de aproximação.

A seguir são feitas observações sobre alguns fatores do lado acadêmico que atuam contra os melhores interesses de todos os envolvidos.

O primeiro é o fator “Gatorade“: um pequeno número de faculdades e universidades, principalmente nos Estados Unidos, tem recebido extraordinário retorno financeiro proveniente de propriedade intelectual desenvolvida pelos seus membros docentes.

É o caso da Universidade da Flórida a qual, desde a invenção da bebida Gatorade em 1965, já recebeu mais de 150 milhões de dólares de royalties pela concessão de licenças para a sua fórmula.

Esse sonho de retorno financeiro significativo empurrou as faculdades e universidades à procura ávida dos direitos de propriedade intelectual e os conseqüentes pagamentos dos royalties do setor empresarial com tal insistência, que muitos projetos colaborativos foram encerrados por advogados antes de sequer começarem.

Infelizmente, a maioria dos membros docentes e administradores universitários normalmente não têm noção do que é necessário para desenvolver uma idéia até o ponto em que possa ser transformada em um novo produto ou serviço para o qual há demanda comercial.

Essa ingenuidade pode frustrar as negociações com a academia a respeito das questões da propriedade intelectual e dos royalties.

Muitas vezes os acadêmicos dizem “dê-nos o dinheiro e nós vamos trabalhar em algo relacionado com o seu interesse”.

Os docentes habitualmente estão à procura de apoio financeiro para as suas próprias idéias, não para as idéias dos outros, e isso faz com que muitos empresários executivos perguntem: “o que estamos financiando?

Por último, há o fator tempo: “financie-me por três anos e ao final lhe darei um relatório mostrando o progresso do projeto”.

O calendário acadêmico normalmente é muito mais longo e elástico do que as empresas podem suportar, especialmente quando estão sob a pressão competitiva proveniente do estrangeiro.

É bom pensar que as empresas não estão em atividade para financiar teses de PhD, pois têm questões específicas que precisam de respostas em curto prazo: um ano ou menos.

Na próxima publicação serão apresentadas as questões pelo lado empresarial.

BIOCOMBUSTÍVEL: Novas Relações Internacionais

terça-feira, 1 de julho de 2008

A inovação na área de combustível exige um tipo de colaboração diferente entre os pesquisadores da indústria e da academia.

Por muitas décadas, o padrão de vida da maioria dos países da Europa Ocidental e dos Estados Unidos tem sido sustentado por novos produtos, serviços e comércio que são o resultado de mais de 100 anos de liderança desses países em pesquisa e desenvolvimento mundial.

No entanto, a foice do custo competitivo tem forçado a eliminação de todos os programas de pesquisa e desenvolvimento de curto prazo do setor privado nesses países.

Os maiores laboratórios corporativos, que já foram notáveis catalisadores para o desenvolvimento econômico, todos estão desaparecendo. Por exemplo, os Laboratórios da RCA – empresa de telecomunicações estadunidense criada em 1919 – já não existem.

Os Laboratórios Bell, em Murray Hill, New Jersey-USA, que já foi o principal laboratório corporativo de pesquisa no mundo, viu o seu orçamento reduzido de 3,0 bilhões de dólares em 1982 para 1,3 bilhões de dólares em 2005 (sem os ajustes inflacionários).

Enquanto isso, as corporações competitivas da Ásia e em outros lugares do mundo, em muitos casos aproveitando a vantagem do baixo custo do trabalho, incrementaram o investimento em pesquisa e desenvolvimento a tal ponto que muitas delas agora estão superiores às companhias do Ocidente industrializado, tanto na qualidade do produto quanto na produtividade.

A conseqüência principal dessas mudanças é que a Europa e os Estados Unidos logo vão verificar que, pela primeira vez na história moderna, a maioria das novas idéias para os produtos e serviços que resultam no crescimento econômico, está sendo gerada em outros lugares do planeta.

Isso representa a perda das hegemonias industrial e econômica.

Essa situação pode ter conformação de dois tipos: circunstancial ou estrutural.

Em ambas as conformações, cabe uma questão básica:

Será que o Ocidente tem alguma vantagem competitiva que poderia aproveitar para corrigir esta tendência?

Se não tiver vantagem competitiva que permita a reação imediata, significa que o problema é estrutural, sendo muito mais difícil de ser alterado.

OBS: Vamos continuar essa análise na próxima publicação.