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CHINA: Desenvolvimento Arriscado com Ensino Avançado

sábado, 18 de outubro de 2008

Entrevista do primeiro ministro da China, Wen Jiabao, para Bruce Alberts, editor chefe da revista Science, acontecida em 30 de setembro de 2008 em Beijing.

Foram 14 perguntas relevantes envolvendo interesses mundiais e aqui destaco uma delas, relacionada com o desenvolvimento científico e tecnológico da China

Bruce Alberts: Volto à questão das suas tentativas para criar um sistema mais inovador, o qual, é claro, significa que deva ser capaz de atrair pessoas inovadoras, talentosas para a China e treinar seu próprio povo para ser inovador, bem como inteligente. Como está indo esse programa?

Wen Jiabao: Este programa tem três aspectos. O primeiro deles é que precisamos cultivar em grande quantidade os nossos próprios talentos inovadores.

Isto tem de começar com as crianças, para desenvolverem um pensamento independente a partir dessa idade.

Após entrarem nas escolas secundárias e nas universidades, é necessário que exista um ambiente livre que lhes permita desenvolver o raciocínio criativo e o pensamento crítico.

Costumo dizer que é mais importante aprender a fazer uma boa pergunta ou descobrir um problema do que resolver um problema.

Este é exatamente o tipo de talento de que precisamos.

Em segundo lugar, precisamos também integrar estreitamente a ciência e a tecnologia com o desenvolvimento econômico e social, porque a ciência e a tecnologia encontram a sua inspiração no desenvolvimento econômico e social.

É por isso que procuramos fortalecer a integração entre a produção, o estudo acadêmico e a pesquisa.

Em terceiro lugar, os nossos cientistas precisam cultivar a ética científica; mais importante, eles necessitam defender a verdade, buscar a verdade a partir de fatos, serem ousados na inovação e tolerantes nas falhas.
Apenas a ciência e a procura da verdade dos fatos pode salvar a China. Estou acreditando nisto firmemente.

Nós desenvolveremos rapidamente a política de abertura ao mundo exterior, pois isso é muito importante para importar os melhores talentos intelectuais, científicos e tecnológicos.

Partindo desta perspectiva, os cientistas podem saltar as barreiras da ideologia e das fronteiras nacionais para servir a toda a humanidade.

Posso assegurar que vamos certamente criar um bom ambiente para os cientistas estrangeiros trabalharem na China.

Mas eu não acredito que esta seja a questão principal.

Eles devem sentir que têm direito às condições para desenvolver as suas carreiras na China, que são respeitados pela China e que os resultados do seu trabalho são respeitados pela China.

Isso vai exigir que nós protejamos os seus espíritos criativos independentes e os direitos de propriedade intelectual.

OBS: Continuarei apresentando outras questões dessa entrevista.

DESAFIOS DA CHINA: A Questão Científica

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A responsabilidade no tratamento da questão ambiental na China tem vínculo direto com as prioridades científicas adotadas pela sociedade chinesa (Ver “Desafios da China”).

Uma das principais questões para os observadores externos é:
em que medida o social, o cultural e o político estão moldando e continuarão a moldar, a própria prática de fazer ciência na China.

A legislação proposta no ano passado (2007) com o objetivo de fazer com que os pesquisadores aceitem e admitam as suas falhas, sugere que há equívocos sobre como a ciência funciona, profundamente enraizados em nível institucional – equívocos que sufocam a adoção de riscos e que promovem o corporativismo.

Mas alguns suspeitam que tais esforços cosméticos farão pouco para resolver os problemas criados por uma cultura de pesquisa fortemente hierarquizada, na qual uma imensa pressão para ter sucesso poderia ser vista como uma condição prévia para o surgimento de evidentes abusos, como ocorreu no caso da falsa clonagem apresentada pelo pesquisador Woo Suk Hwang da Coréia do Sul.

Uma questão ainda mais profunda é a de saber se realmente é possível uma cultura científica vibrante sem um compromisso mais generalizado e aprofundado da sociedade chinesa com a liberdade de expressão.

O direito de desafiar a autoridade e para duvidar de tudo é crucial para a pesquisa científica.

No mundo moderno nenhum país pode ter grande atuação científica a menos que seus cientistas possam colaborar com os pesquisadores do resto do mundo.

Um recorde de pobreza em matéria de direitos humanos não vai tornar essa colaboração impossível – mas vai dificultar muito.

Os cientistas, em grande parte, têm um compromisso com os direitos humanos e ficarão felizes de trabalhar com colegas que compartilham esse compromisso.

Talvez seja uma boa notícia que a história do atual sucesso da China continue a ser caracterizada por um pragmatismo sério.

Com certeza, esta atitude algumas vezes pode fazer parecer que tudo é motivado pelo aspecto econômico de mais baixo nível.

Por exemplo, embora seja demasiado cínico sugerir que o aquecimento global e a degradação ambiental agora estão sendo levados a sério só porque consomem o produto interno bruto da China, esta é sem dúvida uma grande razão de preocupação.

Porém, motivados pelo mesmo pragmatismo, as autoridades chinesas estão reconhecendo cada vez mais que valorizar melhor os seus cientistas significa garantir-lhes os financiamentos adequados com a mínima interferência.

Atualmente, muitos pesquisadores do exterior têm ficado surpresos ao verificar que os estudantes chineses graduados e pós-doutores agora estão muito dispostos a desafiar os seus professores.

A exagerada deferência à autoridade claramente está em franco declínio na jovem geração de cientistas da China – e quem sabe até onde irá essa pragmática liberalização?

Entretanto, o resto do mundo poderá certamente se beneficiar da auto-confiança que faz da China não apenas uma imensa fonte de mão-de-obra altamente qualificada, mas a promessa de uma nova ordem de trabalho, transmitindo uma tradição de inovação da Antiguidade quase sem sofisticação.

DESAFIOS DA CHINA: A Questão Ambiental (parte 2)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Muitas deteriorações ambientais preocupam os brasileiros e também os chineses.

Conforme a publicação anterior (Ver “Desafios da China”), os principais desafios ambientais incluem a contaminação da água, a poluição atmosférica e a degradação dos solos.

No ano passado (2007), 40% das águas residuais urbanas foram lançadas sem qualquer tratamento nos córregos de água próximos das cidades.

Ainda em 2007, a qualidade da água em metade dos 197 rios da China monitorados, foi classificada como altamente poluída com nitrato de amônia, permanganato e petróleo.

Em mais de 60% dos grandes lagos da China, os sais minerais e compostos orgânicos são tão concentrados que provocam a super proliferação da vida vegetal (especialmente as algas).

Isso tem reduzido o oxigênio dissolvido e, portanto, esgotado os lagos de outros organismos vivos, incluindo peixes.

As qualidades do ar e da terra não são as melhores: das 287 grandes cidades monitoradas, em 2007, apenas 60,5% tinham a qualidade do ar no padrão definido pelo Ministério da Proteção Ambiental da China (comparável ao National Ambient Air Quality Standards dos Estados Unidos da América).

A degradação ambiental – como resultado da excessiva exploração dos recursos terrestres – assume as formas de erosão do solo, a desertificação, e a fragmentação dos habitats naturais.

Por exemplo, o excesso de erosão do vento e da água está deteriorando cerca 37,1% da massa terrestre total da China.

A missão mais difícil será a de encontrar formas eficazes de regular os comportamentos e as relações das diversas partes interessadas – os diferentes níveis de governo, os setores industriais e o público – que muitas vezes têm objetivos diferentes e expectativas conflitantes.

Assim, por exemplo, o governo da China tem feito grandes esforços para atenuar a eutrofização dos lagos.

No entanto estes esforços têm sido prejudicados pelos governos locais que privilegiam o crescimento econômico através do desenvolvimento industrial que não é sensível às questões ambientais.

É necessário garantir certa capacidade de crescimento com base na pesquisa científica, na inovação tecnológica, no design político e institucional e na legislação ambiental e de execução.

Por exemplo: são necessários incentivos de mercado para o controle da poluição e eficiente utilização dos recursos, tais como aqueles dos Estados Unidos para o controle da poluição de veículos.

DESAFIOS DA CHINA: A Questão Ambiental

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Com a abertura dos Jogos Olímpicos na próxima semana, as atenções estão focadas sobre o esforço final da China para reduzir a poluição atmosférica, limitando a utilização de automóvel em Pequim, expandindo os transportes públicos e desligando temporariamente algumas indústrias.

Agora é possível ver um pouco do azul do céu, um testemunho do esforço do país para limpar a casa antes da chegada dos hóspedes.

Porém a questão principal e mais importante é saber se estas intenções serão mantidas e até mesmo ampliadas, após o término dos jogos (Ver “Desafios da China”).

O desencontro entre os limitados recursos naturais da China e as exigências de uma enorme população (1,3 bilhões de habitantes), resultou em grande poluição ambiental que afeta diretamente a saúde pública e alimenta os conflitos sociais.

A deterioração ambiental tem sido considerada uma das mais importantes fontes de agitação social na sociedade chinesa: em 2005, havia 51.000 conflitos envolvendo os residentes locais e os poluidores com incidentes de degradação ambiental, incluindo a contaminação de águas, a produção de poeira e os deslizamentos de terras.

Além disso, a própria degradação ambiental em cconseqüência do rápido crescimento está causando importantes perdas econômicas: ao longo dos últimos 20 anos, o custo total da poluição ambiental e deterioração ecológica está estimado em torno de 7% a 20% do produto interno bruto anual (PIB).

No contexto global, a China afetará o resto do mundo tanto no aspecto econômico quanto na questão ambiental e, como reação, também será afetada.

Por essa razão, devem ser estabelecidas e implementadas estratégias inovadoras e eficazes, não só para facilitar o desenvolvimento sustentável na China, mas para contribuir responsavelmente com o futuro sustentável do mundo.

Continuarei esse assunto nas publicações seguintes.

OBS: A fonte dessas informações é Bojie Fu, professor no State Key Laboratory of Urban and Regional Ecology, Research Center for Eco-Environmental Sciences, Chinese Academy of Sciences (CAS), e Diretor-Geral do Bureau of Science and Technology for Resource and Environment, CAS, Science, 31 Jul 2008

OS DESAFIOS DA CHINA

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Por quase todos os parâmetros de medidas utilizados, o crescimento da China é extraordinário.

Porém por trás das espantosas estatísticas existe uma realidade bem mais complexa.

As discussões sobre a emergência da China como uma superpotência muitas vezes se concentram em questões de grande escala.

Isso é compreensível, pois no interior das fronteiras da China habitam mais de 1,3 mil milhões de pessoas – são 20% da população mundial, ou seja, uma em cada cinco pessoas no planeta é chinesa.

Atualmente nas áreas da ciência e da tecnologia, a China já gera mais publicações do que qualquer outro país exceto os Estados Unidos, e ocupa o terceiro lugar em número de doutoramentos premiados.

Praticamente por qualquer parâmetro de medida que você utilize, vai encontrar um extremo na China.

Por exemplo: em que lugar do planeta as autoridades teriam sequer considerado um plano para redistribuir os recursos hídricos com o desvio dos rios importantes por mais de mil quilômetros?

Mas esses números gigantes podem não significar o que parecem ser.

A atual população da China representa uma proporção menor dos habitantes do planeta do que era no século XVII.

Muitos analistas concordam que o atual crescimento econômico daquele país está em uma fase de “boom” e não deve perdurar.

Mais importante, a imagem da China como um gigante monolítico esconde uma realidade mais complexa e mais interessante.

A equipe de Rogers Hollingsworth, por exemplo, argumenta que a expansão da ciência chinesa não significa necessariamente que irá substituir os Estados Unidos como uma nova hegemonia, mas sim que irá encontrar e desempenhar uma função proeminente no interior de uma comunidade global de pesquisa mais diversificada, na qual nenhuma nação terá o domínio absoluto.

Além disso, não está claro se a força crescente da China na ciência – que cada vez mais desmente a noção de que a pesquisa nos países da Ásia carece de originalidade – irá automaticamente tornar as instituições chinesas em importantes atores em todas as fronteiras estabelecidas: o desenvolvimento de drogas, a nanotecnologia ou a ciência espacial.

As nações têm prioridades diferentes e isso é especialmente verdade para aquelas cujo desenvolvimento econômico e tecnológico é relativamente recente.

Lan Xue delineia os perigos de simplesmente competir com base em uma agenda determinada pelas superpotências científicas anteriores, com as suas regras não declaradas sobre quais são as áreas de pesquisas mais importantes e onde os resultados devem ser publicados.

Se a China fosse decidir quais são os seus interesses, digamos, um investimento maciço na produção de energia limpa – um assunto de urgência nacional, para o qual pode ser imprudente entregar a liderança do trabalho sub-financiado no Ocidente – ela tanto poderia atender as próprias necessidades quanto determinar uma ação em escala global.

Na verdade, os problemas globais que iriam ser abordados pelo prisma chinês das prioridades domésticas, formam uma lista de desejos quase perfeita.

Estas prioridades incluem a conservação de água e tratamento da poluição da água, previsão de abalos sísmicos e tecnologias para a construção resistente ao abalo sísmico, a gestão das cheias e culturas resistentes as secas – todas com ampla aplicação generalizada em qualquer outro lugar.

O mesmo procedimento deve acontecer com a saúde: os desafios domésticos da China são também os desafios do mundo.

Por exemplo, a droga antimalárica artemisina é um dos mais célebres benefícios encontrados nas ervas medicinais chinesas.

A gripe aviária ameaça ser uma epidemia doméstica da China, e a propagação da SIDA agora é reconhecida como uma questão nacional, especialmente após o escândalo das infecções por HIV dos camponeses doadores de sangue da província de Henan na década de 1990, minada pela negação oficial.

Quando o Premier Wen Jiabao foi fotografado em 2003 de mãos dadas com um portador do vírus da AIDS, pareceu claro que o governo resolveu enfrentar o problema.

Há muito mais sobre a misteriosa China que será apresentado nas publicações subsequentes.

OBS: Essas informações estão na Nature, Jul 2008.

BIOCOMBUSTÍVEL: China Procura Alternativas

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Desde junho de 2007, a China está propondo deixar de utilizar culturas alimentares, como o milho, para produzir biocombustíveis, afirmou a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma daquele país.

Essa atitude política surgiu em resposta ao aumento de preços em nível mundial devido a procura de milho para a produção de biocombustíveis.

No início daquele mês, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura informou que a estimativa de aumento para as importações mundiais de grãos e óleos vegetais – utilizados em biocombustíveis – é de até 13% entre 2006 e 2007.

Na tentativa de reduzir as emissões de gases nocivos ao ambiente e diminuir a sua necessidade de importação de petróleo, até 2020 a China planeja produzir 15% do seu consumo de combustível a partir de fontes renováveis, como os biocombustíveis.

Em lugar do milho, a alternativa apresentada pela China Oil and Food Corporation é a produção do sorgo para fazer etanol.

A questão central é conseguir deter o aumento do uso de carvão mineral e petróleo na crescente velocidade de industrialização chinesa.